sábado, 21 de junho de 2008

SORRI E O MUNDO TE SORRIRÁ!!

A nossa vida passa rápido, o tempo não pára nem para irmos à casa de banho e a ideia...é que nos também não paremos. Tentamos ganhar tempo de todas as maneiras e o que muitas vezes utilizamos é um plano. Queremos planear para nos organizarmos e para que as coisas saiam como imaginámos na nossa cabeça mas esquecemo-nos de planear para ser surpreendidos. Não para ser surpreendidos pelas coisas menos boas que, queiramos ou não, existem mas sim pela beleza do nosso mundo, para sermos surpreendidos no nosso dia com uma cara alegre, com um chocolate. Para sermos surpreendidos pelo amor gigante que explode todos os dias e que por termos um plano muito fixo nem o sequer vemos, não nos damos conta.

Foram 9 meses na América Latina, muitas realidades, culturas e corações. Mas afinal qual é o sentido de tudo isto? Onde é que quero chegar e o que busco?!
Vale a pena sair, sair não só do país mas, mais que tudo, sair de nós próprios. Entrar nas pessoas, tocar de perto e olhar com os mesmos olhos deles. A importância do nosso umbigo no corpo que temos torna-se relativa, dependendo da maneira que fazemos uso dele. Se o queremos para desfrutar do tempo olhando para ele, não vale a pena. Valerá a pena, e isso sim, se o utilizarmos para lhe fazer cócegas e rir muito. Aí sim, é tempo ganho porque preservar o individualismo é tornarmo-nos especiais por dentro e comuns por fora!!

Depois de todo este tempo aqui passado aprendi a abrir mais o coração, aprendi a dar-lhe mais uso. As diferentes realidades e problemas que conheci numa América com cara de brincadeira fez-me viver tudo muito de perto e com sentimento à flor da pele. Sinto-me pequeno ao tentar descrever os sentimentos e as palavras que se perdem em simples significados que vou deixando pelo caminho.
A pobreza existe, é real, e a camuflagem que se tenta por também o é. Não vão deixar de existir problemas mas o nosso papel é o de deixar o mundo um pouco melhor seja através de uma criança mais saudável, um pedaço de jardim ou uma condição social mais justa. Saber que alguém respirou mais facilmente porque nós existimos. E isto é o que eu busco e continuarei a buscar!!

Tudo o que vivi comparo-o com um sonho. Nenhum acidente, nenhuma doença, nenhum roubo..nenhum nada que seja mau, tudo de bom!! Pessoas que me recebiam de braços abertos sem me conhecerem, comidas recebidas e uma vez ingeridas não iam senão para o coração. Aprendi que matar a sede e a fome não é comprando os melhores produtos mas sim com uma vida em abundância, com um apreciar a beleza em tudo e em todos. O céu é o limite não nos conformemos com menos..

As situações difíceis de muitas famílias relembram-me que o mundo não é, de facto, justo. Pessoas que nascem em lugares de conflito, outras que estão à partida condenados pela realidade e cultura que os rodeia sem por isso terem as mesmas oportunidades que outros. O amor é tudo o que temos! E depois de ter vivido em 9 meses tantas realidades e suas extremidades...eu, já não sou mais eu. Pelo menos não sou o mesmo eu interior.

video

P.S. - Gracias a todos que viajaran comigo!

quarta-feira, 18 de junho de 2008

terça-feira, 17 de junho de 2008

7a MARAVILHA DO (MEU) MUNDO: Parque Nacional Tayrona (Colombia)


Com uma passagem relâmpago por Barranquilla cheguei a Santa Marta para conhecer uma parte das praias da Colombia. Fiquei em casa da filha, do amigo, da amiga da minha tia Mariana :) pura verdade mas não deixaram de me tratar como se fosse eu o amigo deles!! O centro desta cidade é pequeno e como não tinha já muito tempo de sobra neste país resolvi sair de manhãzinha para o Parque Nacional Tayrona que fica a 1hora de onde eu estava. Já chegado à entrada do parque comecei a caminhar na estrada que me levaria até às praias do Parque, sou abordado por um militar que aí controlava. Começa-me a pedir que esvazie os bolsos e que lhe passe também o passaporte. Pois, passaporte é que não tinha porque sou inconsciente e em toda a viagem esteve sempre na mochila só saía quando tinha que passar alguma fronteira. Começo a imaginar já os filmes que me foram contando que metia policias ou militares aqui da América do sul. Começa a ver o dinheiro que eu trazia e perguntava-me se estava sozinho...e então percebi que tinha que levantar a cabeça e respirar confiança caso contrário ia-me comer a cabeça. Começo-lhe então a falar, falar, falar e falar de todos os assuntos e mais alguns da minha viagem, de futebol e da Colombia para ganhar assim proximidade e que não lhe desse tempo sequer de pensar em algo contra mim. Apertamos a mão no final, sorriso na cara y siga!!Safei-me!!

Mais à frente encontro um trabalhador a descansar na berma da estrada que recém chegava da finca onde tinha estado a apanhar mangos. E sem hesitar enche-me os bolsos para que vá comendo pelo caminho, que luxo!

Pelo caminho apanho boleia duma camioneta para mais rápido chegar à praia. Os meus olhos começavam a brilhar, ria-me como se estivesse apaixonado. Era a emoção de voltar a pisar mar.
E em poucos passos pelo parque foi fácil perceber que se tratava da 7a Maravilha do Meu Mundo!! Passei por lugares de neve, de praia, de selva e sobretudo de muita paz e este tem um pouco de todos. Uma imensidão de praia clarinha, limpa e com um mar que respira vida, árvores de fruto por todas as partes a fazer lembrar a Amazónia, muita tranquilidade em lugares que não estão desertos mas a grandeza faz com que se tenha espaço e lugar para tudo. Tudo isto e ainda uma vista para uma montanha que está permanentemente com neve!! Este é o ponto mais a norte que estive em toda a América do Sul depois de já ter tocado no fim do mundo.

No caminho de saída passei pela mesma estrada onde ainda estavam caixas cheias de mangos, gritei por Franco (dono da finca) e convidou-me a entrar e a conhecer tudo. Ele é italiano e mudou-se para ali faz agora 3 anos. Deixou a Europa e investio um par de euros e aí tem um grande pedaço de terreno com tudo e mais alguma coisa fazendo-me lembrar a Amazónia e ainda para mais tem uma praia quase privada a 10 minutos de casa. Em poucos segundos montaram-me um banquete dando umas pauladas na árvores e fazendo-me tomar agua de coco, esticam a mão e servem-me laranjas e mangos e para que não passe fome deram-me um ramo inteiro cheio de oritos (bananas pequeninas). Que melhor despedida deste parque podia eu esperar?! E aí fui eu com o ramo cheio de oritos a passear pelas ruas e ao longe já via o militar a rir e a chamar-me acenando com os braços para me apresentar ao amigo, também militar, que tinha acabado de chegar. Ofereci-lhes uns oritos e ficaram todos contentes!!

sábado, 14 de junho de 2008

A Cartagena de Óscar


Antes de entrar no bus que me levaria na viagem mais larga de todas até Cartagena (26horas) tive que comprar o bilhete e aqui, como em quase toda a América do Sul não há preços fixos, isto é, o valor que nos dão para pagar pode sempre ser regateado. Não se pense que regatear é baixar somente uns centavos, é baixar em muitos casos para metade do preço e sabemos que eles continuam a ganhar. E se, como me acontece a mim, gostamos de regatear este é o lugar perfeito para por à prova todas as técnicas de negociação.

Chegando a Cartagena de Índias fui direito ao centro histórico da cidade que é bonito mas que apenas em uma pincelada de olhos fica visto. A minha carteira de contactos volta a abrir-se graças à minha querida tia Mariana que é colombiana e apesar de a família toda já viver fora do país ainda tem alguns amigos e em especial uma amiga que me abre as portas de casa dela e dos amigos dela, assim são as pessoas deste país. Foi então que conheci a Óscar, amigo da amiga. Foi ter comigo ao centro e daí fomos para a verdadeira Cartagena aquela que não aparece nas fotografias da cidade, que é ignorada pela maioria das pessoas que estão de visita. Aí se vê a Colombia no seu estado natural. Bairros, autocarros que parecem discotecas ambulantes tocando todo o género de ritmos latinos e até parecem coordenados com as manobras perigosas que faz o bus faz. Vê-se o futebol pelas ruas jogado de pé descalço, gente gritando e gente tomando. Óscar estudou produção de cinema e Filosofia mas só terminou este ultimo curso. No entanto trabalhou muitos anos em comunicação social fazendo investigação e produzindo documentais sobre os vários problemas sociais da Colombia. Por questões de segurança teve de deixar essa paixão de lado e dedica-se agora a ser professor em dois colégios perto de casa. Falo de "questões de segurança" porque neste país quem trabalha na área da investigação social como ele fazia tem um risco muito elevado e teve vários amigos a terem que sair do país por estarem ameaçados à morte. Diz-me ele que "os optimistas que há neste país são os que não conhecem a realidade". E parece que assim mesmo é aqui, onde não há liberdade nem democracia, não se pode ter um ponto de vista diferente.
Os problemas sociais são reais e o perigo existe de verdade. Vejo uma quantidade inacreditável de motas aparentemente normais mas que funcionam como táxi, outros tantos vendem minutos de telemovel tal é a falta de emprego assim que tudo vale para se poder ganhar algum dinheiro. Vejo também indígenas e campesinos a pedirem dinheiro no meio de centros de comércio onde se nota que não pertencem a esse ambiente mas são muitas vezes obrigados a sair das suas terras de cultivo, dos seus campos onde produzem de tudo um pouco, para que se passe a produzir mais coca e se possa gerar mais dinheiro sujo. Os campesinos mais revoltosos acabam por ser mortos pelos Paramilitares que são um dos quatro grupos armados que há no país. Somente para meter medo ou roubar algumas parcelas de terreno estes destruem lideres e famílias inteiras como se de um filme de terror se tratasse. O sequestro é um delito cometido com muita frequência pelas FARC e outros grupos armados. Estima-se que existem cerca de 3000 sequestrados, não se sabe do seu paradeiro, não se sabe se estão vivos se estão mortos e as famílias deles têm que viver no meio desta tristeza e incógnita perda...

Há injustiça, corrupção e muita droga à mistura. É difícil saber onde é que isto vai parar ou se alguma vez vai acabar. Essencialmente é um problema cultural mas que não seja isso uma desculpa para deixar de se combater porque enquanto continuar a haver mortos em massa e o jornal a falar de futebol e de acordos de paz permanentes o perigo vai continuar e o país não avançará e muitas vidas se vão continuar a perder.

Antes de sair de Cartagena ainda tive tempo de visitar um bairro, dos mais pobres, com Óscar onde ele ia dar um workshop de cinema a jovens desse mesmo bairro. É admirável que pessoas como ele que tem uma vida muito pouco estável continua a dar e dar tentando tirar do buraco a jovens que vêm poucas oportunidades do meio onde vivem. Uma criança que toca um instrumento é uma criança que nunca vai tocar numa arma, assim na musica como em qualquer outra arte tal como é o cinema ou o teatro. Há que dar a mão aos que estão próximos e só assim se conseguirá ver melhoras porque a um grupo armado como as FARC que já tem à volta de 50 anos de existência concerteza não é formada por velhotes.

...e no meio de alguns bairros vê-se a convivência frequente entre o conflito armado interno e a esperança, a morte e a vida, o ócio e o trabalho.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Cali Night Fever!!



Acabado de chegar a Tulcán (norte de Ecuador) percebi de imediato que a fronteira ainda não estava ao “virar da esquina”. Quando recebi a nota de 5000 pesos colombianos não pensei que tão cedo a ia utilizar. Mas assim foi, já não tinha dólares e a única forma de ir até à porta de saída do país e entrada em Colombia era trocando os pesos por 2,5 dólares e assim pude comprar o bilhete de bus que me levou até à fronteira. Pelo caminho conheci uma colombiana que viajava com dois filhos pequeninos e quatro maloes. Acabámos por nos ajudar mutuamente de uma forma natural, eu a ela com as malas e ela comigo na entrada neste país com nome de menina. Volto a tirar o passaporte da mochila para que possa receber ordem de entrada. De todas as fronteiras por onde passei esta foi, sem duvida, a mais simples sem ter que preencher qualquer papel, bastou-me receber o carimbo. No entanto há sempre um processo de espera seja na saída seja na entrada no país. O nosso crescimento é rápido e os anos passam fugazmente por nós, facilmente vou chegar a velhote e já no fim da vida vou-me perguntar onde é que andei a perder tempo...nas fronteiras, está claro!!

Já na Colombia e com dinheiro emprestado chego a Cali. Esta é a terceira maior cidade do país atrás de Bogota e Medellin. É considerada a capital da loucura, da dança, dos ritmos latinos, da pura fiesta loca!! Voltei a apostar no couchsurfing.com e a ser recebido pela família Rios que vive nos subúrbios mais elegantes da cidade. Uma família habituada a receber viajantes de todas as partes do mundo, têm já um quarto próprio para e todas as informações úteis para quem chega pela primeira vez ao país. Não foi preciso passar muito tempo para que eu me apaixonasse por estas pessoas, vive-se numa onda de boa disposição e amabilidade entre todos. Muito atenciosos com o bem estar de quem esta ao lado...ou a passar ao lado! O difícil aqui é não fazer amigos. Do centro mais fino da cidade levei as manas Rios até ao centro do povo, junto ao mercado e feira onde se vende de tudo. O contraste é muito grande e nota-se facilmente em tudo, na maneira de falar, de vestir ou no aspecto das lojas ou barracas de vendedores...mas eu acho que é aí que se vê melhor como vive a maioria das pessoas nesta cidade e país. E como em qualquer lado este nao deixa de ser perigoso mas não é por isso que vou ficar de fora, arregala-se mais os olhos e entramos. Claro que estando com duas damas mais olhos temos que ter. A certa altura a entrar já mais adentro duma rua com tendas montadas que vendiam mais que as outras, alertou-nos um vendedor “Não se metam por aí...ficam sem cabeça” Percebi de facto pela cara dele que o mais provável era mesmo ficar sem cabeça se por ali fossemos. Diziam-me elas que já de carro tinham medo de ir por estas lugares onde passeávamos e muito mais agora que estávamos a pé. Não nos demorámos muito mas não saímos dali sem antes provar uma bebida à base de fruta e mel rotulada de afrodisíaca.

O melhor desta cidade estava prestes a conhecer com a chegada da noite. Todos os dias a espera pela noite vale a pena pela festa que se vive em qualquer parte da cidade...tem é que ser Cali!! Bailam salsa, merengue, bachata e parecem mesmo profissionais. Nascem já a bailar!!

A grande diferença deste lugar e em geral de toda a América Latina é que as pessoas são autênticas e naturais ao deixarem-se levar pelo ritmo quente da musica sem problemas de quem vai estar a olhar ou se estou a dançar bem ou não, respiram o ritmo e deixam fluir os passos. Se ao principio não sabia muito bem, rapidamente recebi lições de cada “profissional” a quem eu convidava para dançar, aqui não se diz não a um convite para bailar. Que maravilha que é!! O único cuidado a ter neste ritmo alucinante de musica é que não se pode/deve convidar as mulheres lindonamente plásticas que estão acompanhadas de um homem que pode ser alto baixo, bonito feio e cheio de borbulhas porque são na sua maioria narcotraficantes que têm essa grupeta de mulheres com eles e é de mau gosto ir buscar alguma para dançar. De resto...basta fechar os olhos e confiar no ritmo que nos vai saindo da pele através dos nossos pés!!

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Quem vai para Norte é um homem com sorte!!


Já de mochila na Ruta del Sol com a companhia da Mayra, esperávamos que algum carro parasse e nos levasse para Norte com o objectivo de chegar a Puerto Lopéz. Não foi preciso esperar muito para que um jeep nos fizesse sinal para entrar. Levou-nos durante 30 minutos até um pueblito e daí percebi de facto a grandeza do Colégio e Fundação onde estive em Olón e a sorte também de eu ser assim, alto, que me fez com que ao mesmo tempo que esperávamos outra boleia oiço um muchacho chamar "Panchitoooo!!"...e aí estava uma criança do Colégio de quem não me lembrava o nome, ficámos a jogar na estrada até que me despedi e entrámos noutro carro-boleia e depois em outro, que parecia estar em sessão de treinos da F1, que nos deixou já em Puerto Lopéz, um cantón que vive essencialmente da pesca. Aí chegados fomos até casa da família conhecida da Mayra. Ao fazer as distribuições das camas nem me queria acreditar...a dona da casa deixou-me o quarto dela que mais parecia uma suite presidencial, com mobília vinda de França. Escusado será dizer que foi a melhor cama onde dormi nos últimos 9 meses. Da porta de casa tinha a praia a uns metros cheia de barcos de pesca que os ajudam a mobilizar no seu local de trabalho. A falta de peixe que se tem vindo a sentir faz com que eles tenham que sair para alto mar por 3 ou 4 dias em busca do ganha-pao. É um lugar muito tranquilo, todos se conhecem e saludam e o taxi-moto é o transporte sensaçao.

Passada a noite e chegado que estava o dia, peguei na mochila e voltei para a ruta mas desta vez sozinho e sem saber onde ia parar, a nica certeza era a de que queria ir para Norte. Os contactos terminaram e outra coisa não fiz senão deixar-me levar...um carro leva-me uns km mais à frente e daí esperei uma hora de pura tosta solar até que uma carrinha cheia de família parasse e me fizesse sinal para entrar. As filhas meio preocupadas ou assustadas com o estranho que acabava de entrar no carro e ia fazer a viagem com eles, não se lhes ouvia uma palavra. E aí fomos pela ruta fora com lugares de praia de fazer inveja a qualquer balneário. Tem lugares que parece que estamos na Amazónia outros que parece que acabamos de entrar em um bosque e ainda outros fáceis de perceber que estamos em pura praia! Viajavam até Manta e por mim estava perfeito porque tudo o que fosse para Norte já valia a pena. Fiz-lhes saber que não tinha lugar para ficar e que provavelmente iria falar com a municipalidade ou com alguma escola ou padre. Foi então que meio a medo me disseram que podia ficar em casa deles a passar a noite e aproveitar a boleia da filha que na manha seguinte saía um pouco mais para Norte até Bahia. A isto chama-se perfeito Golpe de Sorte!! Contaram-me que é mesmo muito raro pararem para dar boleia a alguma pessoa e muito menos convidar a ficar em casa deles a um desconhecido que recolhem da rua. Não sei o que lhes transmiti mas algo de bom foi concerteza para que me tratassem e confiassem desta maneira. Em casa era como se já nos conhecêssemos desde muito tempo e serviram-me a melhor lasanha dos últimos anos. No dia seguinte e antes de sair de casa, ainda me deram uns bolinhos e sumo para comer a meio da manha.
Senti-me tao acolhido que estava perto de tocar as nuvens. Nao consigo descrever bem os meus sentimentos e estado de espirito com estas pessoas que deixam explodir os coraçoes para cima de outros. Fico contente de ver confirmado que neste mundo fugaz ainda há muita coisa maravilhosa que nao tem preço e que essas sao de facto as melhores, um recebe porque merece ou porque tem uma visao que ve para além do óbvio. Chegando a Bahia fui num barquinho até Canoa, lugar parecido com Montañita mas com metade dos turistas e menos ainda nesta época. Disfrutei da praia deserta que estava nessa manha e segui de novo para a ruta onde facilmente chegaria a Pedernales. A pensar no que ia fazer ao mesmo que caminhava pelas ruas da cidade, fui até à casa do padre. Se já em outros lugares tinha sido muito bem recebido o mesmo nao se passou aqui...nao quis sair da casa e falava comigo por entre as grades da janela dizendo que como nao sabia quem eu era ao ponto de me deixar prenoitar. Respeitei-o mas para mim nao deixei de questionar a amabilidade dele. Talvez fosse pelo meu cheiro, prefiro pensar que sim. E com quase zero dólares no bolso decidi nao esperar mais e ir-me para Colombia. Os dias vao passando rápido, e se um hesita muito acabamos por nao decidir nada e o tempo foge-nos das maos tornando-se ele o que decide.

Compre bilhete de bus até S. Domingo e daí outro para ir até à fronteira. Já era de noite e a impossibilidade de levantar os ultimos euros da minha conta fazia de mim um perfeito mendigo. Tinha apenas 1dólar e uma vontade de comer que se manifestava com sinidos fortes vindos da barriga. É entao que aparece um colombiano de bigode à Escobar, que já me andava a olhar de lado muitas vezes, acerca-se e diz-me se preciso de ajuda, para onde vou, cuidado para que nao me deixe enganar pelos preços, etc. Olhou tantas vezes para os passos que eu dava no terminal que pensei que talvez quisesse tirar-me a mochila por emprestado. Ao conversar com ele pelo terminal, enquanto me explicava o que tinha que fazer na fronteira, dizia-me que “espero que nao tenhas medo ou nao te sintas mal por estar aqui ao teu lado, estou só a tentar ajudar”. Fiz-lhe saber que nao tinha dinheiro suficiente para comer e ele impecável levou-me a uma das cozinhas improvisadas que havia do lado de fora do terminal e pagou o que faltava, nunca um jantar me soube tao bem!! Entrando de novo no terminal e sentados começa-me a mostrar os papéis para a naturalizaçao do filho que tem a mae ecuatoriana. Ao ler um pouco o que estava escrito foi quease automàtico a associacao do apelido dele com o famoso narcotraficante: Escobar. Nao lhe disse nada e seguimos conversando, eu ia tentando controlar a conversa e contava-lhe muitas histórias por onde tina estado na América Latina até que a certa altura me pergunta: “nao tens medo da morte?” Digo-lhe que nao porque estou em verdadeira paz e a viver maravilhas todos os dias assim que quando chegar, chegou. Nao sei exactamente qual era a resposta que ele buscava ou qual o sentido da pergunta mas nao perguntou mais nada depois disto. O bus dele chegou e o meu também, ao despedir-me saca uma nota de 5000 pesos colombianos (2€) que tinha guardada no seu porta moedas e me dá disejando-me sorte e que utilise a nota quando mais necessitar. A sorte está do meu lado!!

Ir confiando nas pessoas, de olhos bem abertos, vale sempre mais a pena. Até hoje nao me passou nada de mal em toda a viagem e isso deve-se essencialmente à maneiara como nos comportamos e falamos com as pessoas. Nao podemos ser desconfiados e medricas com tudo, há que seguir em frente com os olhos abertos e a perfeita noçao de que as nossas atitudes comunicam muito sobre quem somos.